25 de julho de 2017

MACRON E SEUS APÓSTOLOS (CEDEAO)

Há umas semanas o famoso presidente Emmanuel Trump dizia que as mulheres mexicanas tinham muitos filhos… Peço desculpas, tenho que repetir a sentença de forma mais calma, pois ando a confundir muito estas duas figuras.

Estava a dizer, Emmanuel Macron disse que o problema da pobreza na África é as mulheres terem muitos filhos. As mulheres africanas, olhem só!, essas parideiras descerebradas que não sabem fazer nada senão receber esperma e cuspir mais pretinhos para este mundo.

Já era mau por si só se Trump… desculpem, se Macron tivesse dito que os africanos terem muitos filhos é o problema da pobreza na África, mas não, não se trata dos africanos sequer, mas das suas Evas, essas encantadoras de serpentes. Nesta única frase, Macron mostrou as suas cores, é tão oco quanto Trump e tão racista quanto Trump e Le Pen, mas não é tão honesto como estes dois, pois eles ao menos assumem-se como são.

E feminismo à parte, Macron está preocupado com a superpopulação africana porque o destino dos jovens acaba por ser a Europa, e o destino dos jovens migrantes africanos das ex-colónias (?) costuma ser o país ex-colonizador. Estranha dinâmica. Só que em vez de Macron recomendar um muro, recomenda o controlo da natalidade numa base malthusiana idiota.

Sabe Macron qual é a taxa da mortalidade na África? Só sabe que cada mulher chega a ter oito filhos, mas sabe quantos destes sobrevivem de guerras criadas na África por interesses ocidentais, inclusive da própria França? Sabe quantas morrem de doenças ou de medicamentos fora de prazo vendidos por farmacêuticas ocidentais, incluindo as francesas? Sabe Macron quantas pessoas morrem de fome, porque o governo do seu país tem de continuar a pagar à França o direito de usar Franco CFA (ex-Franco de Colónias Francesas Africanas), em vez de lhes fornecer ajuda básica? Sabe Macron quantos desses jovens das suas chamadas ex-colónias têm de fugir do seu país para França iludidos com a ideia de uma vida melhor? Claro que deste último ele sabe e bem, e é o que o procupa.

Mas falemos das ex-colónias. Quando é que as ex-colónias francesas deixaram de ser colónias? Se até hoje França está a colonizar mais territórios. Guiné-Bissau já está lá quase desde que adotámos o Franco CFA e começamos a tornarmo-nos colónia de uma colónia (colónia do Senegal, que é colónia de França). A França quando não consegue controlar, destrói. Quantas ex-colónias francesas estão em Guerra Civil e quantas já enfrentaram golpes de estado quando os seus líderes dizem que não querem alinhar com os interesses franceses? Aliás, o conflito que hoje se vive na Guiné-Bissau não adveio do jogo de influências entre França e Portugal no país?

O discurso de Macron apenas demonstra a aura colonizadora da França e a sua necessidade de controlo. Mas, isso não é sequer estranho, ou não seria Macron um neoliberal, trocado em miúdos, imperialista capitalista. Vejamos só este caso caricato, enquanto algumas ex-colónias africanas estão a pedir compensação monetária pela colonização, por exemplo a Namíbia a pressionar a Alemanha, a França encontra-se nas antípodas continuando as extorquir as ex-colónias, como se estivesse a pedir compensação por deixar de oficialmente as colonizar.

Vamulá, França é França, Macron é Macron, defendem interesses próprios. Só tínhamos de nos irritar com eles e continuarmos a tentar desenhar as nossas próprias soluções. E desta forma esta história seria facilmente varrida para os anais das crónicas de idiotices ocidentais. Mas tal não foi possível, pois eis que, de repente, um grupo de “bons alunos”, que têm a função de empurrar a agenda da França na África, a CEDEAO (gerente do Franco CFA), levanta-se e vem dizer que Macron tem razão e que vão reduzir para três o número máximo de filhos por MULHER.

Lá está de novo, MULHER, quer dizer, um homem pode engravidar dezassete mulheres, sem crise, mas ai da mulher se se engravidar mais de três vezes.

E pelo amor de deus, será que nem Macron nem a CEDEAO sabem que a economia africana não se baseia apenas na medida do PIB? Vais para um sítio onde as pessoas vivem da agricultura e agropecuária e vais medir a riqueza dessas pessoas com um 1 dólar por dia? Consigo entender que Macron não saiba, pois cresceu numa realidade e foi doutrinado com verdades próprias e aplicáveis para o seu meio, mas que os africanos da CEDEAO embarquem nesta cantiga é por demais preocupante.

Uma das razões porque eu não gosto da ideia de comemorar 25 de Maio é mesmo esta: por que comemorar o dia de África, quando a África é tão fracionada e a ideia do pan-africanismo já nem cadáver mais é? Fala-se da África como se fosse um corpo único e com ideais alinhados, quando na verdade, não se trata disso, ainda mantemos as mesmas fronteiras queos nossos senhores criaram e as nossas grandes instituições, como a CEDEAO, por exemplo, ainda dançam sob os cordéis dos interesses europeus.

Queremos uma África desenvolvida, todos falamos de uma África desenvolvida, mas não como uma África de africanos, que tenha em conta a nossa cultura e realidade. Queremos negar o que somos para sermos como os nossos senhores. Deus do céu!, o mais assustador é verificar que mais de sessenta anos depois, Frantz Fanon continua a ter razão, o preto quer ser branco.

A CEDEAO vai controlar a natalidade das mulheres africanas. Mas como? Eu sei que a China tem uma longa prática disso e podemos aprender muito com ela, mas, diabos!, até a China já está a seguir uma direção oposta.

Se a CEDEAO ainda não sabe que o problema da África não se trata da quantidade dos filhos das MULHERES, pois não são muitos filhos que geram a pobreza, mas talvez o oposto, a pobreza (no contexto socioeconómico moderno) é que gera muitos filhos… pois numa sociedade camponesa, muitos filhos significam muitos braços de trabalho e muita comida para a família… Como estava a dizer, se a CEDEAO não sabe que o problema da África não se trata disso, mas de alinhar com interesses ocidentais em detrimento do próprio continente, e também de seguir cegamente essas doutrinas ocidentais que já todos sabemos que não funcionam, então está mais que na hora de reformarem as botas.

Que a França tenha Macron, pode ser bom para a França. Mas que a Guiné-Bissau tenha CEDEAO a tentar decidir por ela, não abona em nosso favor. Espero que o nosso presidente vai ser são o suficiente para nem sequer tentar embarcar nesta ideia abominavelmente idiota.


10 de julho de 2017

PALOMBAR E SEUS AMIGOS

Quando especialistas se juntam para discutir se bombardear Pyongyang ou bombardear Síria é sustentável ou não, sabemos logo que algo não está bem. 

E a questão nem sequer está na destruição premeditada em nome do capital, mas no uso do termo "sustentável", que é agora bastante indiscriminado e quase sempre confundido com "lucrativo". Isto faz com que ações realmente “sustentáveis”, desenvolvidas por pessoas com visão de “sustentabilidade”, passem despercebidas, diluídas no meio destas vacuidades que por aí proliferam.

Só há poucos meses ouvi falar da PALOMBAR (até pensava que era uma fabricante de sanitários, enganado pelo seu logótipo), é uma organização cuja missão é de preservar o património natural e construído, e tive a oportunidade de cooperar com ela, no 5º Encontro de Arquitectura Tradicional e Sustentabilidade, e de conhecer e descobrir a dimensão dos trabalhos que ela tem desenvolvido em função da sua missão.

Andei durante três dias espantado pela forma como uma associação que coordena dezenas de jovens voluntários vindos dos quatro continentes, consegue funcionar com uma fluidez, rigor e simplicidade, num ambiente todo calmo e descontraído… Mas agora acho que a resposta se encontra nos cabelos precocemente brancos dos seus dois jovens dirigentes.

Através da PALOMBAR pude conhecer outras organizações que trabalham também na defesa do património construído e no ensino e propagação da bionconstrução, como FUNDACIÓ EL SOLA e a ESPIGA (que desenvolveram, respetivamente, os seguintes sites WIKIPEDRA e a BIOCONSTRUPEDIA) e ainda conheci estudantes do património arquitetónico tradicional e profissionais e defensores da utilização dos materiais e técnicas tradicionais e da necessidade de aprender com os construtores de passado para melhorarmos o futuro. Por exemplo, a utilização da terra (adobe, taipe, taipa, tabique, entre outros), tão rejeitada nas últimas décadas, está a voltar à vida pelas mãos de arquitetos famosos, como se pode ver neste site de Elisabetta Carnavalle.

A defesa do património tradicional (material ou imaterial) e a defesa do meio ambiente são ações sustentáveis e para as quais devemos prestar atenção e contribuir da melhor forma que pudemos. É bom verificar que existem por aí organizações como a Palombar e tantas pessoas individuais envolvidas neste trabalho que às vezes parece infrutífero. Mas se a Talmude diz que quem salva uma vida salva um mundo, então…

Envolvam-se.